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Tática de guerrilha na guerra da informação


Por Adriana Veloso — Bolsista da Escola de Jornalismo Autêntico do Narco News

Parte da programação da Escola de Jornalismo Autêntico do Narco News para alguns estudantes vai ser a realização de um vídeo a partir da oficina oferecida por Anthony Lappe, diretor executivo do web site Guerrilla News Network. No Brasil, o grupo tornou-se conhecido, principalmente pelos mineiros, desde meados do ano passado, quando, na cidade de Diamantina, Stephen Marshall foi responsável por um semelhante worshop de realização e produção audiovisual no Festival de Inverno da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

O projeto do vídeo desenvolve-se durante os dez próximos dias e tem como roteiro atividades jornalísticas de importantes pessoas como Garry Web, Mario Menendez, Blanca Eekhout e Alex Contreras, dos Estados Unidos, México, Venezuela e Bolívia, respectivamente. Todos estão presentes em Mérida, onde acontece a primeira Conferência Latino Americana para a Legalização das Drogas, entre os dias 12 e 17 de fevereiro.

A seguir, uma entrevista exclusiva de Anthony Lappe. Ele conta histórias que permearam as experiências do Guerrilla News Network nos últimos três anos.


Legenda: Anthony Lappe — Foto: D.R. 2003 Jeremy Bigwood

O GNN (Guerrilla News Network) foi fundado em 2000 por Stephen Marshall e John Shore. A idéia era de trazer para os jovens um tipo de documentário jornalístico em que a música e as artes visuais estivessem presentes. Todos tivemos experiências de trabalho na grande mídia e percebemos que o jornalismo praticado por esses meios é acima de tudo parte da indústria do entretenimento. Portanto, o desejo era utilizar nossa experiência na indústria fonográfica para tratar de assuntos que as pessoas não tomavam conhecimento.

Como começou e qual é o objetivo do projeto?

O primeiro projeto desenvolvido foi em parceria com uma ONG chamada Witness (Testemunha), que realiza oficinas com jovens da periferia utilizando uma produção de baixo custo em equipamento digital. Esse primeiro documentário continha fortes imagens sobre a guerra civil em Serra Leoa. E sua ligação com a indústria do diamante. A partir desse vídeo obtivemos uma boa resposta do público que passou a visitar nosso site e a respeitar esse trabalho de vanguarda da GNN. Logo após esse video, passei a me envolver diretamente com o Stephen e o John e tornei-me reponsável por toda essa parte de web do GNN.

Qual a ligação entre o jornalismo autêntico e o tipo de descontrução estética da imagem realizada por vocês?

Atualmente vivemos em uma era visual, essa nova geração está em contato com videogames, filmes, mais de 500 canais de televisão, computador e infelizmente está perdendo o hábito da leitura. Acho que uma das funções do jornalismo autêntico é justamente colocar as informações utilizando-se de todas as ferramentas digitais e do design para atrair a atenção dessa juventude. Fazemos isso complementando com informações em nosso site para aqueles que gostam de ler. Buscamos inovar em diversos aspectos, por exemplo, não utilizamos o repórter (âncora) em frente à imagem. Uma das coisas mais não-autênticas da televisão é aquela pessoa em frenta a tela dizendo com autoridade coisas que nem escreveu. O que fazemos é deixar que os experts falem por si, sem injetar um ator intermediário entre o que está sendo contado e o espectador.

Qual foi o último trabalho realizado por vocês e como foi o impacto dele na mídia?

Nosso último projeto foi o vídeo White American, um clipe do novo disco do rapper norte americano Eminem, número 1 no ano passado em seu país. Normalmente, as gravadoras escolhem duas ou três músicas de um disco para a MTV, mas essa música foi feita com a proposta de ser algo específico para a internet. A música fala de racismo, da vida dos brancos em subúrbios das grandes cidades norte americanas, da guerra das drogas e toda essa cultura da violência nas escolas, nas ruas e nas cidades criada pela Casa Branca. Foi uma ótima experiência porque o resultado da animação de Shawn Schmidt and Dan Clegg, contratados especificamente para esse trabalho, atingiu nossas expectativas. Foi uma experiência visual muito intensa. No vídeo, Eminem viaja por esse mundo animado, assiste o linchamento de negros no seculo XVIII, faz xixi em cima da Casa Branca e canta no refrão que os brancos norte-americanos são produtos desse racismo violento. O que de fato causou tanto furor na mídia foi a similaridade do refrão em que aparece a palavra (am) erica, representando os jovens brancos do subúrbios das grandes cidades norte americanas, com o nome do assassino Eric Harris que, junto com Dylan Klebold, matou 11 estudantes e uma professora e deixou mais de vinte feridos. Os pais das vítimas do tiroteio de Columbine acusaram Eminem, e nós que criamos o vídeo, de glorificação a esses assassinos. Inclusive em algumas críticas disseram que Eric Harris era o ídolo da américa branca, cantada no vídeo, mas na verdade não era nada disso.

Então, assim que o vídeo foi lançado, o web site da revista Rolling Stone deu destaque à notícia e subsequentemente a CNN fez uma cobertura com os pais das vítimas de Columbine. Isso é extamente o tipo de reação sintomática e simplista que sai na grande mídia. Esses jornalistas não possuem um olhar crítico e profundo para compreender o simbolismo daquela linguagem. Eles só puderam ver o sangue que foi derramado e fazer essa absurda ligação entre os assassinos e a música.

Quais seriam as possibilidades estéticas de por meio de simbolismo visual para passar uma mensagem clara?

Isso é muito delicado, porque de um lado queremos passar uma mensagem forte, que as pessoas não estejam acostumadas. Na verdade, como em nosso primeiro vídeo sobre a guerra civil em Serra Leoa, queríamos chocar. Agora, queríamos lhes atirar a realidade da violência norte-americana na cara. Algo que não fazia parte de seu cotidiano. Então, nesse caso específico, a cobertura espetacular de outros meios fez publicidade para nós. E o vídeo foi visto por muitas outras pessoas que normalmente não o veriam na web, uma vez que partes dele estavam sendo reproduzidas na TV. Espero que cada um tenha julgado por si só o simbolismo que criamos. Além disso, atualmente contamos com uma importante ferramenta que é a internet, onde as informações podem ser mais completas de referências, possibilitando aos que têm acesso à rede fazer uma análise também da cobertura de outros meios.

Referência ao original: matéria publicada originalmente no The Narco News Bulletin (Issue 28) em 13 de fevereiro de 2003. Fonte: narconews.com/Issue28/artigo614.html.

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