História de vida do jornalista responsável pelos grandes furos da imprensa mexicana
Por Adriana Veloso — Bolsista da Escola de Jornalismo Autêntico do Narco News
No topo da mesa, todo de preto, ele é recebido pelo anfitrião de forma festiva. Dom… É assim que lhe chamam. O homem é um leão, explica o promotor do encontro. Lutador de boxe, família de jornalistas, líder carismático, respeitado na capital de Yucatán, Mérida, e conhecido em todo país. Foi torturado, viveu no exílio e reportou a realidade à sua comunidade durante boa parte dos setenta anos da ditadura democrática do Partido Revolucinonário Institucional (PRI).

Legenda: Dom Mário Menendez — Foto: D.R. 2003 Adriana Veloso
Dom Mário Menendez tinha 21 anos quando seu avô, dono do Diário de Yucatán, nomeou-lhe um dos editores do jornal. Começou assim uma carreira que depois o levaria a ser o primeiro estrangeiro a entrevistar Fidel Castro após a revolução em Cuba, onde, aliás, também esteve exilado por dez anos. Depois de ter feito o que sempre gostou de fazer, jornalismo.
Recém saído da revista Sucessos e fazendo a revista Por Que?, o jovem Mário estava na Cidade do México durante o trágico episódio da Praça Três Culturas, em 1968, quando foram assassinadas mais de trezentas pessoas, quase todos jovens. A revista Por Que?, contrariando todos os interesses do governo, em edição extra, publicava as fotos do massacre acompanhado de um relato in loco de Mário Renato Menéndez Rodríguez, que utilizou de toda sua influência e tradição familiar na imprensa mexicana para conseguir imprimir um milhão de exemplares de Por Que?.

A partir de então a polícia começou a persegui-lo. Teve de viver por quase dois anos, fugindo, nas comunidades do sul do México onde ensinaram-lhe maya e protegeram-lhe. Mas, Mário acabou sendo preso, em 1970, e perdeu a cidadania mexicana depois que conseguiu ser trocado pelo diretor da Coca Cola na América Latina, junto com outros 39 presos políticos. Foi nesse tempo que acabou conhecendo Cuba e sua atual esposa, Alícia.
Suas viajens na América Central haviam começado alguns anos antes. Em 1967, Gustavo Días, então presidente do México, chamou os principais jornalistas do país para uma viajem à América Central. Na Guatemala, após cumprida a agenda oficial, os jornalistas foram convidados a ver outro lado do país, a guerrilla nas montanhas. O jovem Mário foi o único que aceitou. Fotografou execuções de paramilitares e contou como estava sendo duramente reprimido o movimento guerrilheiro e a comunidade que o protegia. Essa matéria chamou a atenção de Fidel, que quis saber quem era o jornalista que a havia realizado. Foi aí que Mário conseguiu fazer a entrevistar Fidel Castro.

Vivendo em Cuba, Mário Menendez desenvolveu sua carreira acadêmica com uma pós-graduação em Filosofia. Esteve afastado da atividade jornalística durante esse tempo. Até, que dez anos depois, Lopez Pontillo, presidente do México, queria ir a Cuba, mas lá vivia o último exilado político do país. Mário Renato Menendez Rodrigues exigiu três coisas: seus direitos como cidadão mexicano de volta, poder praticar do jornalismo livremente e a restituição dos danos que o governo havia feito à revista Por Que. Pontillo não aceitou, Por Que não podia voltar. De qualquer forma, Mário, com correção monetária da época, recebeu 107 dólares por ter perdido sua publicação. Não era nada, mas o governo reconhecera de que havia feito um dano à ele e à liberdade de imprensa.
Voltou para a peninsula de Yucatán em 1981 e fundou Por Esto!, um trocadilho com o antigo nome Por Que, que deixou Lopez Pontillo furioso. De sua experiência de vida aprendeu que um jornalista deve servir à sua comunidade, nada mais que isso. Nos primeiros anos de volta ao México sua família morou no topo da construção onde funcionava a redação do Por Esto!.
Hoje já é Dom Mário, homem respeitável e que nas palavras de sua esposa Alícia, continua arriscando-se para contar a verdade no diário Por Esto!. (Esta reportagem terá sua segunda parte, contando a história de Por Esto! publicada em breve.)
Referência ao original: matéria publicada originalmente no The Narco News Bulletin (Issue 28) em 18 de fevereiro de 2003. Fonte: narconews.com/Issue28/artigo643.html.
Entre o tradicional e a vanguarda
Por Esto! intermediando a voz da população
Por Esto! começou há doze anos quando à época seu concorrente o Diário de Yucatán, também propriedade da família Hernandez, vendia 60 mil cópias ao dia. Atualmente, Por Esto! vende 60 mil cópais diárias, a cinco pesos mexicanos (aproximadamente US$0,50) e sobrevive sem depender de publicidades. O seu concorrente agora é que se tornou pequeno. As vendas do Diário de Yucatan caíram para 20 mil exemplares.
De acordo com o diretor de Por Esto!, Mário Renato Menendez Rodriguez, o fato de o jornal não depender de publicidade proporciona uma libertade editorial singular. Uma das práticas diferentes que o jornal tem desde sua fundação é a realização de assembléias junto às comunidades do estado de Yucatán. Nelas a população fala de seus problemas e sobre o que queria ver no jornal.
No sábado, dia 15 de fevereiro, Mário Menendez acompanhado de sua família e dos repórteres de Por Esto!, organizou mais um encontro comunitário. Na praça central de Tixkokob, aos pés de uma histórica igreja do princípio da colonização espanhola, a banda militar toca o hino do México dando início ao encontro.
O fotógrafo Jeremy Bigwood disse que esteve preocupado com tamanha preparação para uma assembléia popular, ou seja, era como se tudo já estivesse arranjado. Homenagens para cá, elogios para lá e Dom Mário faz um discurso. Você tem na palavra o fuzil da revolução, anuncia. Logo o espaço é cedido para que a população fale de seus tormentos.
Ivone Ortega Pacheco, ressalta que essa imprensa é diferente, pois os jornalista já não mais estão trancados dentro de um escritório com ar condicionado, mas estão saindo às ruas e falando com o povo. O contato com os leitores é essencial para Mário Renato Menendez Hernandez, diretor do periódico. Um jornalista deve servir à sua comunidade, nada mais que isso, afirma.
Essas assembléias começaram quando Por Esto deixou de ser uma revista semanal. Na volta do exílio de 10 anos em Cuba, a família de Mário Menendez morou no topo da construção onde funcionava o jornal em Mérida. Os primeiros anos foram difíceis, uma vez que Mário ainda não havia ganhado o respeito e conhecimento do povo yucateco. Assim mesmo, ele ressalta que esse não é o trabalho de uma só pessoa, ou seja, é um trabalho coletivo realizado com seus repórteres que fez com que o jornal se tornasse o quarto maior em vendas no México, mesmo sem chegar à capital.
O estado de Yucatán vive em uma situação polarizada em que o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e Partido de Ación Nacional (PAN) dominam o cenário. Fernando Chavé acusa Por Esto! de ser partidário, mas Al Giordano, do Narco News, defende o amigo Mário, dizendo que ele sempre mostra sua posição a respeito dos acontecimentos e que isso é justo, já que não há imparcialidade. Giordano completa com o exemplo da denúncia que o jornal fez no caso que envolvia Roberto Hernandez, o presidente do Banamex, o principal banco do país e o presidente Ernesto Zedillo, que era do Partido Revolucinonário Institucional (PRI) e que portanto assim não havia uma relação de cumplicidade entre o jornal e o PRI.
Os encontros com a população são uma importante parte do jornalismo autêntico, na opinião de Mário Menendez. Por outro lado, Alex Contreras, jornalista boliviano que esta na Escola de Jornalismo Autêntico do Narco News e acompanhou a assembléia acha que não basta somente fazer entrevistas com as pessoas, ou deixar que falem em público. De acordo com ele, o jornalismo autêntico é horizontalmente feito pelas próprias pessoas.
A venezuelana Blanca Eekhout, da Cátia TVE acha que de certa forma Por Esto! está simplemente mantendo uma forma tradicional de jornalismo, uma vez que Mário Menendez representa o líder salvador, que se oferece a ajudar às pessoas. Dessa forma Por Esto! está centralizado na figura de Dom Mário Menendez, impedindo que o poder de comunicação se disperse entre as pessoas.
Talvez esse não seja exatamente o papel que o jornal quer desempenhar. Dom Mário Menendez é um homem de outra geração, que possui uma história de vida singular e que acredita que ao realizar as assembléias estar dando voz ao povo. O que os estudantes põe em questão é extamente a intermediação desse processo.
Assim, Por Esto! desempenha o papel de transição entre o que é a imprensa tradicional, com seus mitos de imparcialidade e uma nova forma de comunicação em que os movimentos sociais desenvolvem-se e falam por si só, tendo como intermediários somente os próprios meios.
Referência ao original: matéria publicada originalmente no The Narco News Bulletin (Issue 28) em 19 de fevereiro de 2003. Fonte: narconews.com/Issue28/artigo649.html.